Aqui estão os poemas escolhidos:
Apenas meninas:
Mar sonoro, mar
sem fundo, mar sem fim.
A tua beleza
aumenta quando estamos sós.
E tão fundo
intimamente a tua voz
Segue o mais
secreto bailar do meu sonho
Que momentos há
em que eu suponho
Seres um milagre
criado só para mim.
Sophia de
Mello B. Andresen
Apenas meninos:
Mar
Português
Ó mar salgado,
quanto do teu sal
São lágrimas de
Portugal!
Por te
cruzarmos, quantas mães choraram,
Quantos filhos
em vão rezaram!
Quantas noivas
ficaram por casar
Para que fosses
nosso, ó mar!
Valeu a pena?
Tudo vale a pena
Se a alma não é
pequena.
Quem quer passar
além do Bojador
Tem que passar
além da dor.
Deus ao mar o
perigo e o abismo deu,
Mas nele é que
espelhou o céu.
Fernando Pessoa
Grupos:
Fundo do
Mar
No fundo do mar há brancos pavores,
Onde as plantas são animais
E os animais são flores.
Mundo silencioso que não atinge
A agitação das ondas.
Abrem-se rindo conchas redondas,
Baloiça o cavalo-marinho.
Um polvo avança
No desalinho
Dos seus mil braços,
Uma flor dança,
Sem ruído vibram os espaços.
Sobre a areia o tempo poisa
Leve como um lenço.
Mas por mais bela que seja cada coisa
Tem um monstro em si suspenso.
Sophia de Mello Breyner Andresen
O castelo
de areia
Fiz um castelo
de areia
Mesmo à beirinha
do mar
À espera que uma
sereia
Ali quisesse
morar.
Ó mar,
Ó mar…
Mas foi só um
caranguejo
Que ali me foi
visitar.
Ó mar,
Ó mar…
Mas foi só uma
gaivota
Que ali me foi
visitar.
Ó mar,
Ó mar…
E levou o meu
castelo,
O meu castelo de
areia
Para no mar
morar nele
A minha linda
sereia.
Luísa Ducla Soares
Barca Bela
Pescador da
barca bela,
Onde vais pescar
com ela,
Que é tão bela,
Oh pescador?
Não vês que a
última estrela
No céu nublado
se vela?
Colhe a vela,
Oh pescador!
Deita o lanço
com cautela,
Que a sereia
canta bela...
Mas cautela,
Oh pescador!
Não se enrede a
rede nela,
Que perdido é
remo e vela,
Só de vê-la,
Oh pescador.
Pescador da
barca bela,
Inda é tempo,
foge dela
Foge dela
Oh pescador!
Almeida Garrett
Água peregrina
Água peregrina
Fina-flor do vento
Tua voz divina
Dá-me ainda alento.
Navios antigos
Há muito partiram
Os mastros vão lindos
As velas caíram.
No cais beira d, água
Meus olhos perdidos
Escutam a mágoa
Dos barcos esquecidos!
Que força ou perdão
Quer ainda levar
Todo o coração
Nas ondas do mar!
Ruy Cinatti
O ARQUIPÉLAGO DAS SEREIAS
Ó nau Catarineta,
em que andei no mar
por caminhos de ir,
nunca de voltar!
Veio a tempestade
perder-se do mundo,
fez-se o céu infindo,
fez-se o mar sem fundo!
Ai como era grande
o mundo e a vida
se a nau, tendo estrela,
vogava perdida!
E que lindas eram
lá em Portugal
aquelas meninas
no seu laranjal!
E o cavalo branco
também lá o via
que tão belo e alado
nenhum outro havia!
Mundo que não era,
terras nunca vistas!
Ó nau Catarineta
perdida no mar,
não te percas ainda,
vem-me cá buscar!
Branquinho da Fonseca
A rosa e o
mar
Eu gostaria de
falar
Da rosa brava e
do mar.
A rosa é tão
delicada,
O mar tão
impetuoso,
que não sei
como os juntar
E convidar para
o chá
Na casa breve
do poema.
O melhor é não
falar:
Sorrir-lhes só
da janela.
Eugénio de Andrade